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Pânico na bolsa

por PSI Frasquilho, em 23.02.15

Reportagem diário Económico : Dias de pânico na bolsa quinta, 14 ago A profissão de ‘trader’ é uma das mais stressantes. Tanto mexem com o próprio dinheiro como têm a responsabilidade de gerir e aconselhar os clientes. Um passo em falso pode ser suficiente para destruir a fortuna de alguém. Por estes dias, profissionais e amadores sentiram os efeitos de um ataque de pânico: palpitações, suores frios e dificuldade em adormecer. Além da parte física e do rombo na conta bancária há outra certeza: os mercados financeiros nunca mais serão vistos da mesma forma. António, um empresário na casa dos 40 anos, julgava que tinha realizado o melhor negócio da sua vida. Aproveitou o dinheiro ganho com a venda de uma empresa para investir em acções do BES: mais de um milhão de euros. Empreendedor, já era sócio em outro negócio, estava satisfeito com a vida e sentia-se tranquilo para encarar a reforma. A história do primeiro Espírito Santo, um homem poupado chamado José Maria, e que trabalhava madrugada afora, inspirava-o. António também dedicava muitas horas à profissão e, apesar do património pessoal ter sete dígitos, seguia um lema - nunca gastar mais do que se poupa. Não se considerava "forreta", viajava duas vezes por ano para locais paradisíacos e ficava instalado nos melhores hotéis. Em Portugal, preferia dar passeios no seu carro topo de gama. É fã de ‘gadgets' e veste as melhores marcas. Nos últimos dias, o sonho esfumou-se. António sente-se a personagem principal de um filme de terror. Sobra-lhe algum património, aplicado em produtos de baixo risco, mas quando os títulos do banco foram suspensos pela última vez - e os accionistas colocados no ‘bad bank', perdendo tudo ou quase tudo - não se conseguiu levantar da cama. "Só dizia que bolsa nunca mais", conta, ao Diário Económico, Pedro Lino, presidente executivo da corretora Dif Broker, que lidou muito de perto com a situação. O contacto entre os dois, ‘trader' e cliente, reforçou-se quando os papéis do banco iniciaram uma queda vertiginosa. Olhar para as cotações passou a ser um ritual doloroso. "Ainda lhe propus vender dois terços da posição, mas ele não quis. Disse que ‘ia até ao fim'", recorda Lino. Claro que também podia ter havido o reverso da medalha. Isto é, dias antes da derrocada do banco, ele ter vendido grande parte das acções e, de repente, aparecer um comprador para a instituição. "Faria disparar o valor dos títulos", diz Lino. Ou seja, o ‘trader' passaria a ser o mau da fita. Para Maria Antónia Frasquilho, psiquiatra que já foi directora clínica em vários hospitais, e mestre em pedagogia na Saúde, os corretores de bolsa estão no ‘ranking' das profissões mais stressantes. "Têm uma alta responsabilidade e, ao mesmo tempo, existe uma grande imprevisibilidade. Mais importante do que mexer com o dinheiro dos outros é também lidar com a vida deles", explica a especialista, autora de vários livros e artigos científicos. Na esperança de uma notícia milagrosa, o empresário ainda passava os olhos pelos jornais e via o canal Bloomberg. "Mesmo que ainda tenha outro milhão precisará, pelo menos, de uma década para recuperar o dinheiro perdido. Mas isso agora nem é o mais importante", explica Pedro Lino. O CEO da Dif Broker tem-lhe ligado várias vezes. "Tento transmitir-lhe alguma calma e dar-lhe algum alento. Ele separou muito bem as águas, nunca me culpou de nada", acrescenta. Esta semana, António deixou o país para passar férias no estrangeiro, onde espera ficar três semanas para desanuviar. O caso BES abalou os mercados e a confiança dos accionistas. Os acontecimentos sucederam-se em cascata, desde as incertezas à volta do Grupo Espírito Santo até à saída dos títulos do PSI 20. O mundo ficou igualmente surpreendido pela criação em tempo recorde de um banco normal e de um ‘bad bank'. Foi num domingo à noite, dia 3 de Agosto, que o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, anunciou a solução para o BES. Maria, uma gestora de 50 anos, estava em casa com a televisão ligada. Um pouco preocupada porque não era accionista. O fim-de-semana tinha sido agradável, passeou com a família e amigos, o cheiro a férias no ar. Porém, como cliente do BES, era preciso estar actualizada. Ligou a televisão, ouviu as explicações do governador, mas não absorveu de imediato as declarações. Os efeitos do stress no corpo dos investidores "Tem cerca de um milhão de euros em papel comercial do Grupo Espírito Santo. A primeira prestação vence em breve e a segunda dentro de cinco anos", conta Marco Silva, CEO da MTT - Consultores de Investimento, e amigo da gestora. Maria, divorciada, aplicou o dinheiro de uma herança nestes produtos, que pensava não terem risco. "Tratou de tudo sozinha com o gerente", diz o consultor. Na semana seguinte, com as notícias sobre o BES a inundarem os jornais e as televisões, a gestora resolveu ir ao balcão onde fez a aplicação. O gerente estava de férias, mas quem a atendeu garantiu-lhe que ia receber o dinheiro todo. O diálogo com o funcionário do banco deixou-a ainda mais ansiosa. "Está em pânico e a tomar calmantes. Não quer falar com ninguém e só sai de casa para ir às compras. Pôs uns dias de baixa", conta Marco. "O stress começa com alterações do cérebro e dos órgãos vitais, como o coração. Palpitações, suores frios, hipertensão e dificuldade em dormir, são características frequentes", sublinha a psiquiatra Maria Antónia Frasquilho. O consultor, que não a aconselhou no papel comercial, tem passado horas a ler toda a informação que é publicada. "Existem algumas indicações de que os produtos serão pagos", acrescenta Marco, também ele inundado de telefonemas e de pedidos de ajuda via Facebook. "São amigos e outras pessoas que não conheço. Desejam saber o que vai acontecer ao seu dinheiro e procuram indicações sobre investimentos alternativos." Para o Nobel, autor do livro "Thinking, Fast and Slow", que já vendeu mais de um milhão de exemplares, a maioria dos investidores acha que pode fazer coisas que, na verdade, não pode. "A mais perigosa é tentar antecipar o comportamento dos mercados. A menos que se tenha acesso a dados confidenciais, o que é ilegal, é impossível prever o desempenho de uma acção, porque depende de uma série de factores aleatórios". O corretor Pedro Lino é um desses casos. A hipótese de as acções do BES atingirem o valor zero nunca lhe passou pela cabeça. Comprou e vendeu antes da suspensão imposta pela CMVM. E ganhou dinheiro sem ter uma explicação racional. Aliás, até está a pensar ir ao Santuário de Fátima. No primeiro dia de Agosto arrancou de Lisboa em direcção a Tavira para tirar três dias de férias. Meteu-se no seu BMW X1 à hora de almoço, aproveitando pequenas paragens para consultar as cotações da bolsa nacional no ‘smartphone' de bateria dupla. A instabilidade no BES inundou-o de um nervoso miudinho. "Durante o caminho liguei para a corretora várias vezes e, tanto baixei a ordem de compra, que acabei por adquirir os títulos a 10,6 cêntimos", recorda. Já os pais de Lino, que detinham Obrigações do Espírito Santo Financial Group (ESFG), ficaram em maus lençóis."Tem cerca de um milhão de euros em papel comercial do Grupo Espírito Santo. A primeira prestação vence em breve e a segunda dentro de cinco anos", conta Marco Silva, CEO da MTT - Consultores de Investimento, e amigo da gestora. Maria, divorciada, aplicou o dinheiro de uma herança nestes produtos, que pensava não terem risco. "Tratou de tudo sozinha com o gerente", diz o consultor. Na semana seguinte, com as notícias sobre o BES a inundarem os jornais e as televisões, a gestora resolveu ir ao balcão onde fez a aplicação. O gerente estava de férias, mas quem a atendeu garantiu-lhe que ia receber o dinheiro todo. O diálogo com o funcionário do banco deixou-a ainda mais ansiosa. "Está em pânico e a tomar calmantes. Não quer falar com ninguém e só sai de casa para ir às compras. Pôs uns dias de baixa", conta Marco. "O stress começa com alterações do cérebro e dos órgãos vitais, como o coração. Palpitações, suores frios, hipertensão e dificuldade em dormir, são características frequentes", sublinha a psiquiatra Maria Antónia Frasquilho. O consultor, que não a aconselhou no papel comercial, tem passado horas a ler toda a informação que é publicada. "Existem algumas indicações de que os produtos serão pagos", acrescenta Marco, também ele inundado de telefonemas e de pedidos de ajuda via Facebook. "São amigos e outras pessoas que não conheço. Desejam saber o que vai acontecer ao seu dinheiro e procuram indicações sobre investimentos alternativos." Agosto mudou a vida dos ‘traders' José Santos Teixeira, presidente do Conselho de Administração da Optimize Investment Partners, estava a almoçar uma garoupa grelhada num restaurante em Paço de Arcos quando soube da suspensão dos títulos do BES. Já tinha ido ao ginásio da parte da manhã e conversava de forma animada com um amigo. Até que recebeu um email no telemóvel e a boa disposição ficou por ali. Santos Teixeira, que não estava exposto a produtos do BES, salienta a má imagem que este caso passa a quem trabalha nos mercados financeiros. "Situações como esta geram uma desconfiança generalizada porque há pessoas que não distinguem o trigo do joio e acabamos por ser prejudicados", afirma o gestor. Nuno Serafim, director de novos produtos da Intermoney, uma sociedade financeira que trabalha com investidores institucionais, considera que estes têm "mais tolerância à frustração". Trabalham para bancos, seguradoras ou fundos de investimento. No entanto, alguns também sofreram na pele as ondas de choque provocadas pelo BES. "Só que ao contrário dos particulares não telefonam desesperados. Ninguém passa a imagem do coitadinho. O que acontece fica apenas no seio do grupo profissional", explica o director, que também atendeu vários telefonemas de amigos a pedir conselhos. Aliás, no caso dos institucionais, a má publicidade poderia fazer com que os clientes tirassem o dinheiro dos fundos. Este tipo de investidores envolve, normalmente, outros elementos antes de fazer uma aposta arriscada. "Quanto maior o risco, mais pessoas participam no processo de tomada de decisão. Se houver um problema pode escalar para vários níveis hierárquicos e, no limite, rolam cabeças", acrescenta outro profissional dos mercados. O mês de Agosto é cada vez mais imprevisível. A bolha das tecnológicas no final da década de 90, o auge da crise financeira em 2008, ou o ‘mini-crash' das bolsas europeias e norte-americanas em 2011 - quando a S&P cortou o ‘rating' dos Estados Unidos pela primeira vez na história - alterou a vida dos ‘traders'. Longe vão os tempos em que os títulos das empresas podiam ser consultados tranquilamente na praia ou à beira da piscina.

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publicado às 20:31

Gestão de tolos, ganha tolices

por PSI Frasquilho, em 18.02.15

Trabalho.jpg

  

Os benefícios concretos que se encontram (ou não) no trabalho, seja a remuneração, sejam outros prémios ou boas condições de acesso a saúde e segurança são indiscutíveis motivadores. A motivação, por seu lado, é imprescindível ao bom desempenho.

As expectativas de benefícios vão mudando consoante as épocas. Na crise atual, ter e defender um emprego é a linha basal. Mas se quer alavancar a contribuição humana não pode tratar os seus empregados como tolos. Claro que a saúde e a segurança são bens essenciais e como tal valorizados por todos.

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publicado às 21:34

Trabalho e Emprego

por PSI Frasquilho, em 09.02.15

Para que nao restem dúvidas Trabalho (inerente á condição de existência, fonte de vida, criação e prazer) é bem diferente de Emprego (venda da força produtiva em troco de um salário, sendo esta a principal fonte de problemas e mal estar quando se fala de "Loucura de Trabalho")

 

 

Nasce-se em trabalho de parto, não em emprego de parto.

O trabalho é uma energia, o emprego uma necessidade.

O trabalho é uma prova, o emprego é uma ova.

O trabalho é um risco, o emprego é um isco.

Trabalho é alegria, emprego um carrego.

Trabalho é um objectivo, o emprego um digestivo.

Trabalho para fazer, emprego para estar.

No trabalho procuro, no emprego acho.

O melhor emprego é um tacho.

O “eu trabalho” sabe a esforço. O “tenho um emprego” cheira a manha.

Mas os tempos estão é para empregos...ou desempregos.

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publicado às 19:01

“Nunca deixo para hoje o que posso fazer amanhã”

por PSI Frasquilho, em 04.02.15

É urgente. É para ontem. Olhe que o prazo está a terminar. É inadiável.

Palavras ocas para Pablo. Encolhe os ombros:  – Sim, sim. Depois se vê.

Afasta uma pilha de documentos, todos um dia foram prioritários, e “ataca” aquele que lhe assinalaram ser urgente. Examina a introdução e à 5ª linha segue para a revisão dos últimos emails. Passa três  e abre o 4º e outros dois  a seguir. Pensa, deambula por alguns mais com a menção de  importante e …fecha o mail. Diz a si próprio “demasiada pressão, não dá. Preciso de um café. “

Na cafetaria uma colega pede: -Despacha o caso da empresa Niblium, estão a exigir respostas.

- Sim, sim, claro. Mas ainda precisa de análise mais detalhada. Depois envio.

De volta ao posto, retoma o dito documento urgente. Nota-lhe umas falhas, não seriam assim tão categóricas, mas… “merecem uma correção. Amanhã devo ter melhor disposição para isso.”

Passa o Petrus: - Pablo, e então o ofício do gabinete Medeia? O prazo já se foi há séculos.

- Está em finalização.- hesita .

- Para quando?

- Bom, depois de uns acertos talvez amanhã.-esquiva-se

- Pega nele já e despacha-me isso.

Pablo esgatanha a pilha de documentos e repesca o dossier Medeia. Sente um aperto no peito, um sofoco.  “Não dá, isto requer atenção e paciência. Agora não dá” -decide.

Entretanto passa o Marco que lança: Podes- me tratar da encomenda 3W?

 - Claro. É para já.- tranquiliza

 Pega no telefone e… resolve ser melhor ligar à Mizé a combinar um jantar nesse dia. “Tenho a cabeça demasiado esvaída. Muitas preocupações. Muito trabalho. Tudo decisivo e urgente. Preciso arejar”

Cerca  de 20% da população mundial é procrastinador. As causas podem resultar da simples preguiça, de incapacidade de concentração e autocontrolo, de perfecionismo, de  medo de falhar, de fadiga, de frustração, de depressão, mas também de um temperamento rebelde, impulsivo e caos pessoal

E no seu caso? Teste em  http://www.playbuzz.com/sidartal10/que-tipo-de-procrastinador-voc

 

 

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publicado às 13:31

Abraça-me trabalho!

por PSI Frasquilho, em 28.01.15

O Jesuíno vivia para trabalhar. Ou seja, dedicava-se à profissão a 150%. Não tinha tempos livres, muito menos diversões. A família já o tinha dado por perdido, nem se lembravam que existia, salvo um mail não respondido pelo Natal.

O homem não se sentia gente, aliás não sentia coisa nenhuma. Era uma máquina de produção. E achava que gostava. Na verdade nem isso, porque gostos e sentimentos eram coisa que desaprendera. Agora tudo se resumia a fazer mais, cada dia mais. Uma maratona de mais, uma guerra contra si mesmo.

O homem definhava.

O homem estava acorrentado à secretária… e queria nunca se desacorrentar. Os colegas nem assomavam, não estavam para ser enxotados. Houvera tempo em que alguns tentaram chegar-se para discutir um ou outro ponto de projectos afins. Fugiram,  dado qualquer conversa se transformar num tiroteio de que o Jesuíno era o indiscutível vencedor: o que mais sabia, o que mais se esforçava, o que mais publicava, o mais capaz. Aliás a conclusão era sempre a mesma: "cambada de incompetentes. Corja de falhados."

O homem ardia em rancores.

Não sabia de notícias, nem de noites nem de manhãs, nem de brancos nem de amarelos. Para quê? Ele sabia a fundo da sua área e sabia que todos os demais estavam errados e que o mundo era uma selva. Urgia dedicar-se a 200% ao trabalho.

O homem dormia no escritório dado que os trajectos casa-trabalho só significavam perda de tempo. De todo o modo não havia vivalma no domicílio. Deixou de pagar as contas e tornou-se um eremita científico. Uma só janela para o mundo: o computador na internet.

O homem era apontado a dedo, esquizitóide. Certos novatos gananciosos por fama tomavam-no como exemplo: aí está um tipo que foi longe. Pouco depois apercebiam-se que o homem perdera o impacto a par e passo que perdera a capacidade de estar com alguém.

O homem fixou-se no lado oculto da lua. O gosto dera em dever e este transformara-se em ter de ser. O trabalho já era um sacrifício a que se obrigava, o cilício diário.

O homem sentia-se mais doente por dentro do que por fora. Passou a dedicar-se a 250% ao trabalho.

E um dia… “abraça-me trabalho” inventou o Jesuíno enquanto a última dor lhe estraçalhava o peito.

 

Karōshi - morte por excesso de trabalho. O Japão lançou o termo e o alerta para esta doença ocupacional e/ou mental (compulsão ao trabalho). O Ministério da Saúde, Trabalho e Previdência Social japonês publicou em 2007: 147 trabalhadores morreram por este problema (acidentes vasculares cerebrais ou enfartes cardíacos); todas mortes associadas a longas horas de trabalho, trabalho por turnos e horários irregulares. A maioria das vítimas trabalhava mais de 3000 horas por ano, pouco antes do falecimento.

 

ALERTA! Fatores psicossociais no topo dos problemas de saúde ocupacional.

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publicado às 16:52

Sangue novo ou calo velho?

por PSI Frasquilho, em 26.01.15

 

Em tempos de guerra por empregos quem escolher em termos de idade? Quem conservar: o jovem ou o maduro?

O potencial de idade é uma questão a ponderar. Em Portugal é comum que quem tenha mais de 35 anos (ou nem isso) experimente sérias dificuldades em  aceder a um novo trabalho (a não ser que, com mérito público,  tenha sido desafiado por algum head hunter). Por outro lado há quem se queixe de ter dinossauros anémicos que não produzem e de quem não se conseguem livrar.  A boa verdade é que por cá grassa um enorme estigma (ideias negativas feitas )  ligado à idade e que  prejudica tanto velhos como novos.

Que eu saiba é “ilegal” discriminar na base da idade, como o é na base da aparência ou do sexo, mas…lá que essa indecorosa injustiça existe não tenhamos dúvidas.

Tenho conhecimento de diversos casos de desempregados maiores, talentosos, capazes, com bons hábitos de trabalho, motivados  que são enxovalhados a cada entrevista: “ah, sabe, pretendemos um perfil dinâmico, alguém entusiástico com sangue novo, sem vícios”. Ou seja, aos 40, 50 anos estaremos “por decreto” empedernidos, apodrecidos, viciados?

Assim como conheço recém formados que desesperam por uma oportunidade de crescer profissionalmente,  e nas entrevistas a conversa gira em torno de “bom, você não tem experiência, falta-lhe calo”. Como desenvolver o que nos falta se não nos é facultada tal ocasião?

E ambos,  jovens e mais idosos partilham vexames, acumulam frustrações e,  (mal ! ) entram em confronto  com a outra geração. Melhor seria que percebessem que ambos são vítimas dum sistema laboral fechado, discriminatório, perverso, falhado, que promove o conflito ao invés da cooperação.

 Qualquer organização laboral sábia entenderia que tem de ter um naipe de trabalhadores de diversas gerações.  Só assim assegurará a inovação combinada com a sabedoria que acautela “corridas para o abismo”; garantirá a aprendizagem supervisionada que controla incidentes e riscos; fornecerá o exemplo e a modelagem tão importantes para a qualidade do trabalho. E,  salvaguardará a imagem de credibilidade, segurança e cultura da empresa o que é um valor.

Numa visão inteligente sabemos que cada pessoa é um manancial único, que há novos que intrinsecamente são “velhos”, e maiores que têm um tal capital intelectivo e comportamental que são máquinas de juventude. O que nos diz o conhecimento, em geral sobre vantagens e desvantagens de cada grupo etário?

 

O sangue novo é exuberância, mas…- em princípio chegam no pico das hormonas, ansiosos pela novidade, a quererem provar a si mesmo, e aos outros, que vão fazer toda a diferença. Têm muitas certezas e arriscam. Procuram desafios. Tendem a ser críticos com o status quo, Estarão mais acostumados a lidar com as tecnologias, terão mais formação académica e poderão não exigir tanta formação. Pensa-se que poderão ser melhor moldados mas tal colide com o seu psiquismo de acharem que sabem tudo e  até mais do que aqueles que os iriam treinar.  Têm sede de trabalho: aceitam salários inferiores e , no inicio, até se submetem a longos horários.

Mas isso não durará muito. Estão naturalmente implicados em “fazer crescer a sua vida pessoal”  afetiva, familiar, social e lúdica pelo que o trabalho é apenas mais um dos investimentos. Como a ambição está presente (o que é positivo) tendem a deixar facilmente um trabalho por outro, caso tal oportunidade surja.

Em termos psicopatologicos a sua marca será a ansiedade e são comuns transtornos de pânico.

.

Os velhos são experiência, sabedoria, calo, mas… Usualmente formados na escola do trabalho os mais velhos terão menos formação académica mas aprenderam os segredos e as artes do ofício. Resolvem problemas com subtileza e têm mais facilidade em cooperar com colegas. São motivados pelo brio pessoal  e não estão à espera de provar nada. Se não se sentem valorizados, ou se não há desafios motivadores,  podem reagir com retaliações passivas e fazerem-se de   acomodados. Usualmente participam nas formações, acatam o treino mas os hábitos são difíceis de mudar. Tendem a dedicar-se mais ao trabalho, são mais cuidadosos nos detalhes e até podem investir  tempo adicional se sentirem o projeto como seu.   As condutas, em geral, são de menor risco, mais responsáveis. A energia vital será naturalmente menor, porém não têm tantas solicitações externas ( família, diversões, carreiras a construir)  pelo que esta poderá ser mais canalizada para o trabalho. Quando novas tecnologias são introduzidas podem ter mais dificuldade e levar mais tempo a aprender. Contudo têm mais habilidade em lidar e a gerir a comunicação com pessoas.

Em termos psicopatológicos, quando adoecem devido a riscos psicossociais a sua marca será mais a depressão. 

Sendo todos necessários todos têm os seus prós.  E , claro á 4º feira todos se assemelham.

ALERTA. Riscos psicossociais no topo dos problemas de saúde ocupacional.

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publicado às 16:55

O artolas

por PSI Frasquilho, em 23.01.15

 

 - O tipo teve de ser despedido, claro. Não podemos tolerar desvios ao descritivo da tarefa. Primeiro ele teria de pesar o açucar-13 gramas, nem mais nem menos-, depois colocá-lo com a mão direita a apoiar a esquerda num funil a 10cm da boca da engrenagem, num movimento rápido oscilaria o tubo e descarregaria o açúcar. Sem perder tempo,  com o indicador  esquerdo acionaria o ON da máquina. De imediato com o dedo anelar da mão direita desencravaria a vara. Empunharia-a a 90º  Oscilaria a vara 15º e por 40 s enrolaria os fios com delicada firmeza, corpo imóvel para poupar tempo.  Então... Ele era um artolas, um insubordinado. Fazia como lhe apetecia. Intolerável!

- Creio que agora ainda aí pelas ruas...um desgraçado. Não podemos ser frouxos, ai de nós.

 ...

Quem não é fustigado com a rigidez prescritiva "dos engenheiros de todos os trabalhos"? 

Errado, errado, errado!

As tarefas devem ser,  dentro do viável, o menos monótonas e repetitivas. Resguardar a autonomia é essencial. Tal como o controlo sobre as pausas e sobre o ritmo de trabalho.  E sempre há que deixar oportunidade para que as pessoas revelem as suas próprias habilidades. Estes são comprovados fatores de motivação e bom desempenho. 

 

ALERTA! Fatores psicossociais no topo das problemáticas de saúde ocupacional.

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publicado às 23:26

Multitasking pica-miolos.

por PSI Frasquilho, em 22.01.15

Quero crer que colho mais simpatia do que malquerenças. Pois é, já pensavam que este blog não era mais que uma falsa partida: um primeiro post e nada. Para os poucochinhos (creio eu) que se regozijaram enganaram-se. Vou permanecer falante, ativa quanto ás misérias e excelências do TRABALHO. Oh, doce horror! 

Que sucedeu? Como já reconheci estou a léguas de manejar bem as tecnologias. Sou do tempo da sebenta, do lápis, da tabuada e do abaco. Depois do primeiro post nunca mais consegui entrar no blog. Tentei multivias, fiz senha, desfiz senha, perdi o Sapo, enfim... Hoje surgiu um milagre., fiz o mesmo que ontem e ...apareceu o blog e a pergunta Publicar?. Claro que sim, sr. Sapo, nem se pergunta. Aproveita-se a boleia.

Este é um caso corriqueiro nos dias de hoje:  saber fazer a sua tarefa mais 50000 que entretanto se sobrepuseram. A informática é apenas uma delas. Em suma, tudo ao mesmo tempo! É preciso ser multitarefeiro, multifacetado, multipotentemente motivado, multiatencioso...e acaba-se multipateta.

Depois de anos de endeusamento do multitasking (modernices) estudos neurocomportamentais concluiram que esta diminui a produtividade  em cerca de 40% e destrói o cérebro.

Trabalhadores bombardeados com diversas correntes de informação eletrónica sofrem perdas da capacidade de estar atento, de recordar a informação e emperram no momento de mudar duma tarefa para a outra. Os multitaskers usuais têm problemas na organização do seu pensamento,  em filtrar o que é realmente relevante e em priorizar, além de andarem sempre tensos.

Investigadores concluiram mesmo que ao fim dum tempo o nosso QI baixa, ou seja há uma deterioração intelectiva. Isso é só temporário, é cansaço dizem os defensores.

Mentira! Estudos recentes (University of  Sussex 2014) fizeram Ressonância Magnéticas Cerebrais a pessoas que executavam por norma 2 ou mais  tarefas simultaneas. Estas tinham menor densidade cerebral no cortex cingulado anterior- uma área responsável pela empatia e pelo controlo cognitivo e comportamental.

Nestes trabalhos de loucos já percebem porque anda tudo aparvalhado, egoísta  e descontrolado. Os pica miolos existem.

ALERTA! Riscos psicossociais no topo dos problemas de saúde ocupacional.

 

I

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publicado às 15:47

Enlouquecendo

por PSI Frasquilho, em 19.01.15

Tive de nascer. Há palavras que jorram. Como a água, não há mãos ou boca que as contenha. Libertam-se pelas palavras ditas, pelos gestos, pela escrita. Fluem e não param. Espalham-se. Podem ser absorvidas, secar ou confluir noutras correntes maiores mas incorporam, sempre, o universo.

Nasci em trabalho, no trabalho medrei e  em trabalhos morrerei. É assim: fruição, tortura e sustento. É mesmo assim o trabalho que amamos e odiamos, que procuramos em desespero e de que, em maior desespero, fugimos. É assim. 

Os trabalhos de loucos são piores. Darei nota de alguns e inevitavelmente irão trazer-me mais histórias, umas mais leves outras pesadas, triste, alegres, repulsivas... Esta é de hoje e com ela saímos.

Enloqueci de repente, passei-me. Não! Foi devagar, foram muitos anos...Não!  foi aos poucos, devagarinho no começo mas no fim foi um repentão, explodi. Ainda me custa, tremo todo, é uma sufocação. Desgraçados...desgraçado eu.

Toda a vida fui certinho, esforço atrás de esforço. Andavam os outros aos pássaros, nas corridas de arco e rolamentos, nas espreitas... bailes e cinemas sei lá o que isso é.  Eu aqui a esfacelar as mãos, a suar e a feder, a torcer o miolo que havia de melhorar. Melhorar o caraças! Foi-se a infância, foi-se a juventude e eu a bulir.

(pois)

Cheguei a chefe, tive 5 a meu cargo. Dava ao litro das 8h ás 22h, todos os dias menos ao Domingo. Era brioso e os outros davam o seu, uma familia. Está a perceber?

(hummm)

E começou a coisa: primeiro levaram um, a fusão vinha aí,  já não dava. Depois o outro e o outro que a fusão já cá estava e não dava. Fiquei eu, e fiquei chefe . Era tudo,  chefe e trabalhador, mas no ordenado tiraram. Comecei a enfernizar. Então é justo? Não era, mas tinha de ser. Foçava mais e mais, às vezes até aos Domingos. Doia-me o peito, não dormia. E eu: estou  nos limites, assim não dá. - E eles: aguenta lá. - Os meses a passarem e eu a ficar hipertenso e a rolar das ideias. Está a perceber?

(sim)

EU A FAZER O TRABALHO DE CINCO, de seis que já não me conto a mim... Oh, Sr. Silva isto acaba mal eu já estou a arder. - E ele: então arrefece, homem!.-  E cada vez mais , orçamentos, medidas, clientes aos berros. - E ele: desenrasca, pá. Isto está mal. - E eu á rasca e ele a partir para o México. Está a perceber?

Eu tinha palpitações, caimbras na barriga, passavam-me nuvens pela moina. Eu branco como a cal. Ele bem tostadinho: Oh homem, só enrascadas! Então eu volto e isto tá pior que antes. SIM, NADA ESTÀ BEM. EU TRABALHO COMO UM BURRO E ELES SÓ A RECLAMAREM.  Está a perceber?

(e?)

Atirei-me ainda mais á obra. Não tinha dias nem noites. Naquele dia eu digo-lhe: Sr Silva, a minha velha faz anos, eu queria apagar as velas com ela. Sabe como é, eu moro longe... Hoje saio às 7h!  - E ele: olha, agora deu-lhe para o romance. Nem penses, há muito aí a fechar. Outro que lhe apague a vela, ela até gostava. Ah ah ah.!-  E eu subiu-me um fogo tal que parecia o inferno a arder. Toldou-se-me a razão e esmaguei-lhe o focinho... o fim do mundo. Acabei com ele e ele acabou mais comigo. Aos 50 quem me quer? E ainda por cima despois duma agressão...

E  a fama? Agora sou maluco. Já me passou pela ideia ir lá acabar com o resto. Tenho cá uma revolta! Sinto que me roubaram... e roubaram. Está a perceber?

 

ALERTA: FACTORES PSICOSSOCIAIS a liderarem os problemas de saúde nos locais de trabalho.

 

 

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publicado às 18:23


Na balança entre a tortura e o prazer, as perdas e os ganhos, a morte e a vida, eis uma análise coloquial . Os fatores psicossociais de risco à lupa da psiquiatria. Um SOS e uma partilha. Diga? Posso ajudar?

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