Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Abraça-me trabalho!

por PSI Frasquilho, em 28.01.15

O Jesuíno vivia para trabalhar. Ou seja, dedicava-se à profissão a 150%. Não tinha tempos livres, muito menos diversões. A família já o tinha dado por perdido, nem se lembravam que existia, salvo um mail não respondido pelo Natal.

O homem não se sentia gente, aliás não sentia coisa nenhuma. Era uma máquina de produção. E achava que gostava. Na verdade nem isso, porque gostos e sentimentos eram coisa que desaprendera. Agora tudo se resumia a fazer mais, cada dia mais. Uma maratona de mais, uma guerra contra si mesmo.

O homem definhava.

O homem estava acorrentado à secretária… e queria nunca se desacorrentar. Os colegas nem assomavam, não estavam para ser enxotados. Houvera tempo em que alguns tentaram chegar-se para discutir um ou outro ponto de projectos afins. Fugiram,  dado qualquer conversa se transformar num tiroteio de que o Jesuíno era o indiscutível vencedor: o que mais sabia, o que mais se esforçava, o que mais publicava, o mais capaz. Aliás a conclusão era sempre a mesma: "cambada de incompetentes. Corja de falhados."

O homem ardia em rancores.

Não sabia de notícias, nem de noites nem de manhãs, nem de brancos nem de amarelos. Para quê? Ele sabia a fundo da sua área e sabia que todos os demais estavam errados e que o mundo era uma selva. Urgia dedicar-se a 200% ao trabalho.

O homem dormia no escritório dado que os trajectos casa-trabalho só significavam perda de tempo. De todo o modo não havia vivalma no domicílio. Deixou de pagar as contas e tornou-se um eremita científico. Uma só janela para o mundo: o computador na internet.

O homem era apontado a dedo, esquizitóide. Certos novatos gananciosos por fama tomavam-no como exemplo: aí está um tipo que foi longe. Pouco depois apercebiam-se que o homem perdera o impacto a par e passo que perdera a capacidade de estar com alguém.

O homem fixou-se no lado oculto da lua. O gosto dera em dever e este transformara-se em ter de ser. O trabalho já era um sacrifício a que se obrigava, o cilício diário.

O homem sentia-se mais doente por dentro do que por fora. Passou a dedicar-se a 250% ao trabalho.

E um dia… “abraça-me trabalho” inventou o Jesuíno enquanto a última dor lhe estraçalhava o peito.

 

Karōshi - morte por excesso de trabalho. O Japão lançou o termo e o alerta para esta doença ocupacional e/ou mental (compulsão ao trabalho). O Ministério da Saúde, Trabalho e Previdência Social japonês publicou em 2007: 147 trabalhadores morreram por este problema (acidentes vasculares cerebrais ou enfartes cardíacos); todas mortes associadas a longas horas de trabalho, trabalho por turnos e horários irregulares. A maioria das vítimas trabalhava mais de 3000 horas por ano, pouco antes do falecimento.

 

ALERTA! Fatores psicossociais no topo dos problemas de saúde ocupacional.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:52

Sangue novo ou calo velho?

por PSI Frasquilho, em 26.01.15

 

Em tempos de guerra por empregos quem escolher em termos de idade? Quem conservar: o jovem ou o maduro?

O potencial de idade é uma questão a ponderar. Em Portugal é comum que quem tenha mais de 35 anos (ou nem isso) experimente sérias dificuldades em  aceder a um novo trabalho (a não ser que, com mérito público,  tenha sido desafiado por algum head hunter). Por outro lado há quem se queixe de ter dinossauros anémicos que não produzem e de quem não se conseguem livrar.  A boa verdade é que por cá grassa um enorme estigma (ideias negativas feitas )  ligado à idade e que  prejudica tanto velhos como novos.

Que eu saiba é “ilegal” discriminar na base da idade, como o é na base da aparência ou do sexo, mas…lá que essa indecorosa injustiça existe não tenhamos dúvidas.

Tenho conhecimento de diversos casos de desempregados maiores, talentosos, capazes, com bons hábitos de trabalho, motivados  que são enxovalhados a cada entrevista: “ah, sabe, pretendemos um perfil dinâmico, alguém entusiástico com sangue novo, sem vícios”. Ou seja, aos 40, 50 anos estaremos “por decreto” empedernidos, apodrecidos, viciados?

Assim como conheço recém formados que desesperam por uma oportunidade de crescer profissionalmente,  e nas entrevistas a conversa gira em torno de “bom, você não tem experiência, falta-lhe calo”. Como desenvolver o que nos falta se não nos é facultada tal ocasião?

E ambos,  jovens e mais idosos partilham vexames, acumulam frustrações e,  (mal ! ) entram em confronto  com a outra geração. Melhor seria que percebessem que ambos são vítimas dum sistema laboral fechado, discriminatório, perverso, falhado, que promove o conflito ao invés da cooperação.

 Qualquer organização laboral sábia entenderia que tem de ter um naipe de trabalhadores de diversas gerações.  Só assim assegurará a inovação combinada com a sabedoria que acautela “corridas para o abismo”; garantirá a aprendizagem supervisionada que controla incidentes e riscos; fornecerá o exemplo e a modelagem tão importantes para a qualidade do trabalho. E,  salvaguardará a imagem de credibilidade, segurança e cultura da empresa o que é um valor.

Numa visão inteligente sabemos que cada pessoa é um manancial único, que há novos que intrinsecamente são “velhos”, e maiores que têm um tal capital intelectivo e comportamental que são máquinas de juventude. O que nos diz o conhecimento, em geral sobre vantagens e desvantagens de cada grupo etário?

 

O sangue novo é exuberância, mas…- em princípio chegam no pico das hormonas, ansiosos pela novidade, a quererem provar a si mesmo, e aos outros, que vão fazer toda a diferença. Têm muitas certezas e arriscam. Procuram desafios. Tendem a ser críticos com o status quo, Estarão mais acostumados a lidar com as tecnologias, terão mais formação académica e poderão não exigir tanta formação. Pensa-se que poderão ser melhor moldados mas tal colide com o seu psiquismo de acharem que sabem tudo e  até mais do que aqueles que os iriam treinar.  Têm sede de trabalho: aceitam salários inferiores e , no inicio, até se submetem a longos horários.

Mas isso não durará muito. Estão naturalmente implicados em “fazer crescer a sua vida pessoal”  afetiva, familiar, social e lúdica pelo que o trabalho é apenas mais um dos investimentos. Como a ambição está presente (o que é positivo) tendem a deixar facilmente um trabalho por outro, caso tal oportunidade surja.

Em termos psicopatologicos a sua marca será a ansiedade e são comuns transtornos de pânico.

.

Os velhos são experiência, sabedoria, calo, mas… Usualmente formados na escola do trabalho os mais velhos terão menos formação académica mas aprenderam os segredos e as artes do ofício. Resolvem problemas com subtileza e têm mais facilidade em cooperar com colegas. São motivados pelo brio pessoal  e não estão à espera de provar nada. Se não se sentem valorizados, ou se não há desafios motivadores,  podem reagir com retaliações passivas e fazerem-se de   acomodados. Usualmente participam nas formações, acatam o treino mas os hábitos são difíceis de mudar. Tendem a dedicar-se mais ao trabalho, são mais cuidadosos nos detalhes e até podem investir  tempo adicional se sentirem o projeto como seu.   As condutas, em geral, são de menor risco, mais responsáveis. A energia vital será naturalmente menor, porém não têm tantas solicitações externas ( família, diversões, carreiras a construir)  pelo que esta poderá ser mais canalizada para o trabalho. Quando novas tecnologias são introduzidas podem ter mais dificuldade e levar mais tempo a aprender. Contudo têm mais habilidade em lidar e a gerir a comunicação com pessoas.

Em termos psicopatológicos, quando adoecem devido a riscos psicossociais a sua marca será mais a depressão. 

Sendo todos necessários todos têm os seus prós.  E , claro á 4º feira todos se assemelham.

ALERTA. Riscos psicossociais no topo dos problemas de saúde ocupacional.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:55

O artolas

por PSI Frasquilho, em 23.01.15

 

 - O tipo teve de ser despedido, claro. Não podemos tolerar desvios ao descritivo da tarefa. Primeiro ele teria de pesar o açucar-13 gramas, nem mais nem menos-, depois colocá-lo com a mão direita a apoiar a esquerda num funil a 10cm da boca da engrenagem, num movimento rápido oscilaria o tubo e descarregaria o açúcar. Sem perder tempo,  com o indicador  esquerdo acionaria o ON da máquina. De imediato com o dedo anelar da mão direita desencravaria a vara. Empunharia-a a 90º  Oscilaria a vara 15º e por 40 s enrolaria os fios com delicada firmeza, corpo imóvel para poupar tempo.  Então... Ele era um artolas, um insubordinado. Fazia como lhe apetecia. Intolerável!

- Creio que agora ainda aí pelas ruas...um desgraçado. Não podemos ser frouxos, ai de nós.

 ...

Quem não é fustigado com a rigidez prescritiva "dos engenheiros de todos os trabalhos"? 

Errado, errado, errado!

As tarefas devem ser,  dentro do viável, o menos monótonas e repetitivas. Resguardar a autonomia é essencial. Tal como o controlo sobre as pausas e sobre o ritmo de trabalho.  E sempre há que deixar oportunidade para que as pessoas revelem as suas próprias habilidades. Estes são comprovados fatores de motivação e bom desempenho. 

 

ALERTA! Fatores psicossociais no topo das problemáticas de saúde ocupacional.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:26

Multitasking pica-miolos.

por PSI Frasquilho, em 22.01.15

Quero crer que colho mais simpatia do que malquerenças. Pois é, já pensavam que este blog não era mais que uma falsa partida: um primeiro post e nada. Para os poucochinhos (creio eu) que se regozijaram enganaram-se. Vou permanecer falante, ativa quanto ás misérias e excelências do TRABALHO. Oh, doce horror! 

Que sucedeu? Como já reconheci estou a léguas de manejar bem as tecnologias. Sou do tempo da sebenta, do lápis, da tabuada e do abaco. Depois do primeiro post nunca mais consegui entrar no blog. Tentei multivias, fiz senha, desfiz senha, perdi o Sapo, enfim... Hoje surgiu um milagre., fiz o mesmo que ontem e ...apareceu o blog e a pergunta Publicar?. Claro que sim, sr. Sapo, nem se pergunta. Aproveita-se a boleia.

Este é um caso corriqueiro nos dias de hoje:  saber fazer a sua tarefa mais 50000 que entretanto se sobrepuseram. A informática é apenas uma delas. Em suma, tudo ao mesmo tempo! É preciso ser multitarefeiro, multifacetado, multipotentemente motivado, multiatencioso...e acaba-se multipateta.

Depois de anos de endeusamento do multitasking (modernices) estudos neurocomportamentais concluiram que esta diminui a produtividade  em cerca de 40% e destrói o cérebro.

Trabalhadores bombardeados com diversas correntes de informação eletrónica sofrem perdas da capacidade de estar atento, de recordar a informação e emperram no momento de mudar duma tarefa para a outra. Os multitaskers usuais têm problemas na organização do seu pensamento,  em filtrar o que é realmente relevante e em priorizar, além de andarem sempre tensos.

Investigadores concluiram mesmo que ao fim dum tempo o nosso QI baixa, ou seja há uma deterioração intelectiva. Isso é só temporário, é cansaço dizem os defensores.

Mentira! Estudos recentes (University of  Sussex 2014) fizeram Ressonância Magnéticas Cerebrais a pessoas que executavam por norma 2 ou mais  tarefas simultaneas. Estas tinham menor densidade cerebral no cortex cingulado anterior- uma área responsável pela empatia e pelo controlo cognitivo e comportamental.

Nestes trabalhos de loucos já percebem porque anda tudo aparvalhado, egoísta  e descontrolado. Os pica miolos existem.

ALERTA! Riscos psicossociais no topo dos problemas de saúde ocupacional.

 

I

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:47

Enlouquecendo

por PSI Frasquilho, em 19.01.15

Tive de nascer. Há palavras que jorram. Como a água, não há mãos ou boca que as contenha. Libertam-se pelas palavras ditas, pelos gestos, pela escrita. Fluem e não param. Espalham-se. Podem ser absorvidas, secar ou confluir noutras correntes maiores mas incorporam, sempre, o universo.

Nasci em trabalho, no trabalho medrei e  em trabalhos morrerei. É assim: fruição, tortura e sustento. É mesmo assim o trabalho que amamos e odiamos, que procuramos em desespero e de que, em maior desespero, fugimos. É assim. 

Os trabalhos de loucos são piores. Darei nota de alguns e inevitavelmente irão trazer-me mais histórias, umas mais leves outras pesadas, triste, alegres, repulsivas... Esta é de hoje e com ela saímos.

Enloqueci de repente, passei-me. Não! Foi devagar, foram muitos anos...Não!  foi aos poucos, devagarinho no começo mas no fim foi um repentão, explodi. Ainda me custa, tremo todo, é uma sufocação. Desgraçados...desgraçado eu.

Toda a vida fui certinho, esforço atrás de esforço. Andavam os outros aos pássaros, nas corridas de arco e rolamentos, nas espreitas... bailes e cinemas sei lá o que isso é.  Eu aqui a esfacelar as mãos, a suar e a feder, a torcer o miolo que havia de melhorar. Melhorar o caraças! Foi-se a infância, foi-se a juventude e eu a bulir.

(pois)

Cheguei a chefe, tive 5 a meu cargo. Dava ao litro das 8h ás 22h, todos os dias menos ao Domingo. Era brioso e os outros davam o seu, uma familia. Está a perceber?

(hummm)

E começou a coisa: primeiro levaram um, a fusão vinha aí,  já não dava. Depois o outro e o outro que a fusão já cá estava e não dava. Fiquei eu, e fiquei chefe . Era tudo,  chefe e trabalhador, mas no ordenado tiraram. Comecei a enfernizar. Então é justo? Não era, mas tinha de ser. Foçava mais e mais, às vezes até aos Domingos. Doia-me o peito, não dormia. E eu: estou  nos limites, assim não dá. - E eles: aguenta lá. - Os meses a passarem e eu a ficar hipertenso e a rolar das ideias. Está a perceber?

(sim)

EU A FAZER O TRABALHO DE CINCO, de seis que já não me conto a mim... Oh, Sr. Silva isto acaba mal eu já estou a arder. - E ele: então arrefece, homem!.-  E cada vez mais , orçamentos, medidas, clientes aos berros. - E ele: desenrasca, pá. Isto está mal. - E eu á rasca e ele a partir para o México. Está a perceber?

Eu tinha palpitações, caimbras na barriga, passavam-me nuvens pela moina. Eu branco como a cal. Ele bem tostadinho: Oh homem, só enrascadas! Então eu volto e isto tá pior que antes. SIM, NADA ESTÀ BEM. EU TRABALHO COMO UM BURRO E ELES SÓ A RECLAMAREM.  Está a perceber?

(e?)

Atirei-me ainda mais á obra. Não tinha dias nem noites. Naquele dia eu digo-lhe: Sr Silva, a minha velha faz anos, eu queria apagar as velas com ela. Sabe como é, eu moro longe... Hoje saio às 7h!  - E ele: olha, agora deu-lhe para o romance. Nem penses, há muito aí a fechar. Outro que lhe apague a vela, ela até gostava. Ah ah ah.!-  E eu subiu-me um fogo tal que parecia o inferno a arder. Toldou-se-me a razão e esmaguei-lhe o focinho... o fim do mundo. Acabei com ele e ele acabou mais comigo. Aos 50 quem me quer? E ainda por cima despois duma agressão...

E  a fama? Agora sou maluco. Já me passou pela ideia ir lá acabar com o resto. Tenho cá uma revolta! Sinto que me roubaram... e roubaram. Está a perceber?

 

ALERTA: FACTORES PSICOSSOCIAIS a liderarem os problemas de saúde nos locais de trabalho.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:23


Na balança entre a tortura e o prazer, as perdas e os ganhos, a morte e a vida, eis uma análise coloquial . Os fatores psicossociais de risco à lupa da psiquiatria. Um SOS e uma partilha. Diga? Posso ajudar?

Mais sobre mim

foto do autor



Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Posts mais comentados



Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D