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Pânico na bolsa

por PSI Frasquilho, em 23.02.15

Reportagem diário Económico : Dias de pânico na bolsa quinta, 14 ago A profissão de ‘trader’ é uma das mais stressantes. Tanto mexem com o próprio dinheiro como têm a responsabilidade de gerir e aconselhar os clientes. Um passo em falso pode ser suficiente para destruir a fortuna de alguém. Por estes dias, profissionais e amadores sentiram os efeitos de um ataque de pânico: palpitações, suores frios e dificuldade em adormecer. Além da parte física e do rombo na conta bancária há outra certeza: os mercados financeiros nunca mais serão vistos da mesma forma. António, um empresário na casa dos 40 anos, julgava que tinha realizado o melhor negócio da sua vida. Aproveitou o dinheiro ganho com a venda de uma empresa para investir em acções do BES: mais de um milhão de euros. Empreendedor, já era sócio em outro negócio, estava satisfeito com a vida e sentia-se tranquilo para encarar a reforma. A história do primeiro Espírito Santo, um homem poupado chamado José Maria, e que trabalhava madrugada afora, inspirava-o. António também dedicava muitas horas à profissão e, apesar do património pessoal ter sete dígitos, seguia um lema - nunca gastar mais do que se poupa. Não se considerava "forreta", viajava duas vezes por ano para locais paradisíacos e ficava instalado nos melhores hotéis. Em Portugal, preferia dar passeios no seu carro topo de gama. É fã de ‘gadgets' e veste as melhores marcas. Nos últimos dias, o sonho esfumou-se. António sente-se a personagem principal de um filme de terror. Sobra-lhe algum património, aplicado em produtos de baixo risco, mas quando os títulos do banco foram suspensos pela última vez - e os accionistas colocados no ‘bad bank', perdendo tudo ou quase tudo - não se conseguiu levantar da cama. "Só dizia que bolsa nunca mais", conta, ao Diário Económico, Pedro Lino, presidente executivo da corretora Dif Broker, que lidou muito de perto com a situação. O contacto entre os dois, ‘trader' e cliente, reforçou-se quando os papéis do banco iniciaram uma queda vertiginosa. Olhar para as cotações passou a ser um ritual doloroso. "Ainda lhe propus vender dois terços da posição, mas ele não quis. Disse que ‘ia até ao fim'", recorda Lino. Claro que também podia ter havido o reverso da medalha. Isto é, dias antes da derrocada do banco, ele ter vendido grande parte das acções e, de repente, aparecer um comprador para a instituição. "Faria disparar o valor dos títulos", diz Lino. Ou seja, o ‘trader' passaria a ser o mau da fita. Para Maria Antónia Frasquilho, psiquiatra que já foi directora clínica em vários hospitais, e mestre em pedagogia na Saúde, os corretores de bolsa estão no ‘ranking' das profissões mais stressantes. "Têm uma alta responsabilidade e, ao mesmo tempo, existe uma grande imprevisibilidade. Mais importante do que mexer com o dinheiro dos outros é também lidar com a vida deles", explica a especialista, autora de vários livros e artigos científicos. Na esperança de uma notícia milagrosa, o empresário ainda passava os olhos pelos jornais e via o canal Bloomberg. "Mesmo que ainda tenha outro milhão precisará, pelo menos, de uma década para recuperar o dinheiro perdido. Mas isso agora nem é o mais importante", explica Pedro Lino. O CEO da Dif Broker tem-lhe ligado várias vezes. "Tento transmitir-lhe alguma calma e dar-lhe algum alento. Ele separou muito bem as águas, nunca me culpou de nada", acrescenta. Esta semana, António deixou o país para passar férias no estrangeiro, onde espera ficar três semanas para desanuviar. O caso BES abalou os mercados e a confiança dos accionistas. Os acontecimentos sucederam-se em cascata, desde as incertezas à volta do Grupo Espírito Santo até à saída dos títulos do PSI 20. O mundo ficou igualmente surpreendido pela criação em tempo recorde de um banco normal e de um ‘bad bank'. Foi num domingo à noite, dia 3 de Agosto, que o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, anunciou a solução para o BES. Maria, uma gestora de 50 anos, estava em casa com a televisão ligada. Um pouco preocupada porque não era accionista. O fim-de-semana tinha sido agradável, passeou com a família e amigos, o cheiro a férias no ar. Porém, como cliente do BES, era preciso estar actualizada. Ligou a televisão, ouviu as explicações do governador, mas não absorveu de imediato as declarações. Os efeitos do stress no corpo dos investidores "Tem cerca de um milhão de euros em papel comercial do Grupo Espírito Santo. A primeira prestação vence em breve e a segunda dentro de cinco anos", conta Marco Silva, CEO da MTT - Consultores de Investimento, e amigo da gestora. Maria, divorciada, aplicou o dinheiro de uma herança nestes produtos, que pensava não terem risco. "Tratou de tudo sozinha com o gerente", diz o consultor. Na semana seguinte, com as notícias sobre o BES a inundarem os jornais e as televisões, a gestora resolveu ir ao balcão onde fez a aplicação. O gerente estava de férias, mas quem a atendeu garantiu-lhe que ia receber o dinheiro todo. O diálogo com o funcionário do banco deixou-a ainda mais ansiosa. "Está em pânico e a tomar calmantes. Não quer falar com ninguém e só sai de casa para ir às compras. Pôs uns dias de baixa", conta Marco. "O stress começa com alterações do cérebro e dos órgãos vitais, como o coração. Palpitações, suores frios, hipertensão e dificuldade em dormir, são características frequentes", sublinha a psiquiatra Maria Antónia Frasquilho. O consultor, que não a aconselhou no papel comercial, tem passado horas a ler toda a informação que é publicada. "Existem algumas indicações de que os produtos serão pagos", acrescenta Marco, também ele inundado de telefonemas e de pedidos de ajuda via Facebook. "São amigos e outras pessoas que não conheço. Desejam saber o que vai acontecer ao seu dinheiro e procuram indicações sobre investimentos alternativos." Para o Nobel, autor do livro "Thinking, Fast and Slow", que já vendeu mais de um milhão de exemplares, a maioria dos investidores acha que pode fazer coisas que, na verdade, não pode. "A mais perigosa é tentar antecipar o comportamento dos mercados. A menos que se tenha acesso a dados confidenciais, o que é ilegal, é impossível prever o desempenho de uma acção, porque depende de uma série de factores aleatórios". O corretor Pedro Lino é um desses casos. A hipótese de as acções do BES atingirem o valor zero nunca lhe passou pela cabeça. Comprou e vendeu antes da suspensão imposta pela CMVM. E ganhou dinheiro sem ter uma explicação racional. Aliás, até está a pensar ir ao Santuário de Fátima. No primeiro dia de Agosto arrancou de Lisboa em direcção a Tavira para tirar três dias de férias. Meteu-se no seu BMW X1 à hora de almoço, aproveitando pequenas paragens para consultar as cotações da bolsa nacional no ‘smartphone' de bateria dupla. A instabilidade no BES inundou-o de um nervoso miudinho. "Durante o caminho liguei para a corretora várias vezes e, tanto baixei a ordem de compra, que acabei por adquirir os títulos a 10,6 cêntimos", recorda. Já os pais de Lino, que detinham Obrigações do Espírito Santo Financial Group (ESFG), ficaram em maus lençóis."Tem cerca de um milhão de euros em papel comercial do Grupo Espírito Santo. A primeira prestação vence em breve e a segunda dentro de cinco anos", conta Marco Silva, CEO da MTT - Consultores de Investimento, e amigo da gestora. Maria, divorciada, aplicou o dinheiro de uma herança nestes produtos, que pensava não terem risco. "Tratou de tudo sozinha com o gerente", diz o consultor. Na semana seguinte, com as notícias sobre o BES a inundarem os jornais e as televisões, a gestora resolveu ir ao balcão onde fez a aplicação. O gerente estava de férias, mas quem a atendeu garantiu-lhe que ia receber o dinheiro todo. O diálogo com o funcionário do banco deixou-a ainda mais ansiosa. "Está em pânico e a tomar calmantes. Não quer falar com ninguém e só sai de casa para ir às compras. Pôs uns dias de baixa", conta Marco. "O stress começa com alterações do cérebro e dos órgãos vitais, como o coração. Palpitações, suores frios, hipertensão e dificuldade em dormir, são características frequentes", sublinha a psiquiatra Maria Antónia Frasquilho. O consultor, que não a aconselhou no papel comercial, tem passado horas a ler toda a informação que é publicada. "Existem algumas indicações de que os produtos serão pagos", acrescenta Marco, também ele inundado de telefonemas e de pedidos de ajuda via Facebook. "São amigos e outras pessoas que não conheço. Desejam saber o que vai acontecer ao seu dinheiro e procuram indicações sobre investimentos alternativos." Agosto mudou a vida dos ‘traders' José Santos Teixeira, presidente do Conselho de Administração da Optimize Investment Partners, estava a almoçar uma garoupa grelhada num restaurante em Paço de Arcos quando soube da suspensão dos títulos do BES. Já tinha ido ao ginásio da parte da manhã e conversava de forma animada com um amigo. Até que recebeu um email no telemóvel e a boa disposição ficou por ali. Santos Teixeira, que não estava exposto a produtos do BES, salienta a má imagem que este caso passa a quem trabalha nos mercados financeiros. "Situações como esta geram uma desconfiança generalizada porque há pessoas que não distinguem o trigo do joio e acabamos por ser prejudicados", afirma o gestor. Nuno Serafim, director de novos produtos da Intermoney, uma sociedade financeira que trabalha com investidores institucionais, considera que estes têm "mais tolerância à frustração". Trabalham para bancos, seguradoras ou fundos de investimento. No entanto, alguns também sofreram na pele as ondas de choque provocadas pelo BES. "Só que ao contrário dos particulares não telefonam desesperados. Ninguém passa a imagem do coitadinho. O que acontece fica apenas no seio do grupo profissional", explica o director, que também atendeu vários telefonemas de amigos a pedir conselhos. Aliás, no caso dos institucionais, a má publicidade poderia fazer com que os clientes tirassem o dinheiro dos fundos. Este tipo de investidores envolve, normalmente, outros elementos antes de fazer uma aposta arriscada. "Quanto maior o risco, mais pessoas participam no processo de tomada de decisão. Se houver um problema pode escalar para vários níveis hierárquicos e, no limite, rolam cabeças", acrescenta outro profissional dos mercados. O mês de Agosto é cada vez mais imprevisível. A bolha das tecnológicas no final da década de 90, o auge da crise financeira em 2008, ou o ‘mini-crash' das bolsas europeias e norte-americanas em 2011 - quando a S&P cortou o ‘rating' dos Estados Unidos pela primeira vez na história - alterou a vida dos ‘traders'. Longe vão os tempos em que os títulos das empresas podiam ser consultados tranquilamente na praia ou à beira da piscina.

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publicado às 20:31



Na balança entre a tortura e o prazer, as perdas e os ganhos, a morte e a vida, eis uma análise coloquial . Os fatores psicossociais de risco à lupa da psiquiatria. Um SOS e uma partilha. Diga? Posso ajudar?

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