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A primeira consulta de 2016

por PSI Frasquilho, em 11.01.16

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-  Bom ano!

-  Obrigada. Como vai?

-  Já estive melhor...

-  Então?

-  Lembra-se qie o meu problema tem todo a ver com o trabalho?

-  Sim.

-  Pois, já estava a ultrapassar aquela de me tirarem do lugar que foi meu durante 11 anos e agora andar aí aos caídos, conforme o que faz falta (é Segurança). Lá me ergui e não esmoreci mais a pensar que era uma injustiça e que me estavam a dar cabo da vida... esta incertiza: dois dias aqui , duas semanas ali. E já não bastava terem me colocado logo num edificio que fechou para obras por causa do amianto. Lembra-se?

- Sim, claro.

- Pois, todos tiveram de sair porque aquilo não era seguro mas a mim era para aguentar, e tinha de fazer a ronda e tudo e estar lá 8 horas por dia. Acha bem?  Mas lá me recompus e só lá fiquei um mês. Mas isto de andar aos azares, aos dias é muito mau, mas pronto, já me convencia. O pior foi agora.

- Quer então dizer?

- Digo que estou passado, completamente. Nem se acredita... Veja lá: o meu chefe veio ter comigo, foi na semana das consoadas e festas. Ele veio ter comigo, assim com um ar amigável. Até pensei que me vinha dar um presente, ou assim, ele a reluzir. Eu até a estranhar ele vir ter comigo. E depois (crise de choro ansiosa), depois... disse (mais lágrimas). Nem se acredita...

-  Noto que coisa boa não terá sido.

-  Ele chega-se de falinhas mansas: "Ó, Fernandes tenho aqui uma proposta para lhe fazer. ". E sabe o que era?, nem se acredita..."Então o teu horário é de 8h, tu vives sózinho não te deve fazer diferença, até acho que é bom ...Aproveitas para descansar, passear , ir às miúdas... tu é que sabes. Fazemos assim: trabalhas 4 horas seguidas e entras às 7h em Sintra. Depois tens o tal intervalo teu, e entras outras vez às 8h (da noite) até ás 24h em Alverca. " Até parece mentira.

 

O trabalho instável é um risco psicossocial, fonte de ansiedade e incertezas na programação da vida. Agora imaginem que além disso o horário de trabalho é de tal forma desregulado  que o trabalhador fica completamente à mercê do serviço. Trabalhar por dois periodos separados de várias horas obriga a que não possa haver um verdadeiro periodo de recuperação pessoal. O ir e vir para o local de trabalho, dado que raros trabalham a 100 metros de casa é efetivamente tempo destinado ao trabalho e juridicamente esse tempo e trajeto até está previsto em caso de acidentes de trabalho. Este caso veridico relatado, além de contrariar o código de trabalho, é realmente revelador da escravidão laboral dos nossos dias. Um homem, lá porque não tem família passa a ser entendido com ferramenta de que se dispõe alargadamente. Deixa de ter vida pessoal, ou tem a vida que o patrão lhe prescreve, e aplica-se esta: Trabalho tanto horário que quando chego a  casa tenho que escolher entre jantar, tomar banho  ou dormir para não chegar atrasado ao serviço.

 

O Fernandes não aceitou. Não sabe ainda o que o patrão lhe reserva mas sem dúvida que fez a escolha certa. Só que mesmo as escolhas certas são dificeis e implicam perdas.

Bom 2016!

 

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publicado às 16:20



Na balança entre a tortura e o prazer, as perdas e os ganhos, a morte e a vida, eis uma análise coloquial . Os fatores psicossociais de risco à lupa da psiquiatria. Um SOS e uma partilha. Diga? Posso ajudar?

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